NU e as “Diferentes Formas da Mesma Areia Morta”

Um mês após o lançamento de “Diferentes Formas da Mesma Areia Morta” no Spotify, os NU decidiram dar umas palavrinhas à RV Magazine.
Esta entrevista foi feita em parceria com a Vila Nova Online.

Por Ana Carolina Sanches

Quem são os NU?

NU é uma banda que se dedica a explorar sonoridades e a fundi-las com elementos como a imagem e a literatura como forma de transmitir uma mensagem, tanto nos trabalhos de estúdio como em performances ao vivo. Desde sempre que estas ligações multi-disciplinares existiram. Juntamo-nos em 2016 para os “Concertos Púbicos”, no bar Carpe Diem em Santo Tirso. Os Púbicos consistiam em juntar a comunidade que proliferava pelo Carpe Diem e traze-los à tona. Todos os meses havia um coletivo diferente, com pessoal diferente e um mês para ensaiar e compor um concerto de vinte a trinta minutos. Alguns de nós nunca tinham tocado ao vivo sequer, talvez por isso o pessoal esforçava-se a sério. Eram grandes noites. Os NU nascem aqui, nos Púbicos, no Carpe, na fusão de dois desses coletivos. Desde esse início até agora tem havido algumas alterações na formação até chegar a esta última que compôs e gravou os temas do ultimo álbum. Como coletivo, o fundamental e o que realmente merece destaque, por tão evidente que é, é o rock. É transversal e abrangente o suficiente para não nos afastarmos da realidade.
Acho que todos nós frequentamos o Carpe, era uma segunda casa. É um bar de Rock sem merdas, e foi importante pela troca de conhecimento e ideias entre amigos e pessoal mais velho que lá ia.

Algum dos membros já tinha participado em noutro projecto musical?

A maior parte dos projectos que se tentaram erguer foi com pessoal de lá, e tentamos sempre tocar e fazer música, mas nada que fosse tão sério assim como agora. O que houve sempre foi vontade de tocar e procurar novas abordagens. Havia a necessidade de expressar algo, de fazer algo, dentro ou fora do espero musical.

Falem-nos sobre o “Diferentes Formas da Mesma Areia Morta”.

Este trabalho está dividido em duas partes que se interligam. O primeiro tema retrata os sintomas decadentes do homem citadino, o isolamento social e a depressão omnipresente alimentada pela frustração. A segunda parte é uma colagem de passagens do livro V. de Thomas Pynchon que, nas suas palavras, nos expõe um mundo cada vez mais em rota de colisão com o inanimado.

De onde surgiu a ideia de um videoclip de todo o álbum?

A ideia do vídeo surgiu antes da ideia do álbum. Queríamos gravar um video em formato live e foi esse o ponto de partida. A duração, o numero de temas e a narrativa depois criada, apareceu naturalmente com o desenrolar de todo o processo.

Qual tem sido a reacção do público?

É difícil dizer isso em termos concretos porque o mundo real está parado, aquele em que poderíamos levar este álbum a alguns palcos e perceber a reação das pessoas ao vivo. Quanto à reação nas redes sociais e de pessoas mais próximas com quem tivemos oportunidade de falar, penso que está a ser positiva no geral.

Falem-nos dos EP’s anteriores.

O Sala de Operações nº 338 (2016), é gravado a partir de composições feitas e pensadas para os Concertos Púbicos. A gravação surge da urgência de quem fez algo que precisa de ser registado antes que desapareça. O álbum surge de dois dos concertos para os Púbicos: a Baratas e A Puta Dança, e a Lunar Caustic, que transporta o livro homônimo de Malcolm Lowry para o espetro musical. Foi tudo um processo quase impulsivo. Tínhamos urgência em registar, em ouvir. O II surgiu em 2018 a convite de um amigo nosso que tinha criado recentemente um estúdio. As duas músicas já tinham sido compostas durante os concertos que fomos tendo no primeiro EP e vimos aqui uma oportunidade de registar as músicas. Os textos exploram temas como a psicose nocturna, o consumo selvagem, a cidade. Na altura a banda teve uma reformulação e isso influenciou o mudou a sonoridade. É uma abordagem mais directa e agressiva do que até então tínhamos feito.

A quarentena está a afectar a banda?

No que toca a concertos, não tinhamos uma agenda muita preenchida, portanto nesse aspecto não nos afetou muito. Dentro do que tinhamos projetado para o lançamento do álbum sim, afetou. Mas por outro lado, foi um contexto peculiar este em que o álbum saiu, especialmente tendo em conta a mensagem que tentamos com ele transmitir.

Continuam a ensaiar nestas circunstâncias?

Não, sendo um grupo de seis elementos fica difícil trabalhar em conjunto. Mas por outro lado isto mostra-nos novas formas de interagir e trabalhar, não paramos totalmente, temos acumulado ideias.

Quais são as vossas perspectivas para o futuro?

Continuar a trabalhar e tentar aproveitar cada fase da melhor forma possível. Aproveitar estes tempos para pensar e quando o mundo reabrir aproveitar a possibilidade de poder voltar a trabalhar em conjunto para transportar essas ideias para o estúdio.